terça-feira, 9 de junho de 2026

A Encíclica "Magnifica Humanitas"

 Phonteboa

Cento e trinta e cinco anos depois da Encíclica Rerum Novarum  - Novas Questões - do papa Leão XIII, publicada no ano de 1891, a Igreja Católica, através do papa Leão XIV, traz à tona uma nova Encíclica com orientações sobre como deve comportar os fiéis católicos diante da realidade. Não se trata simplesmente de rememorar as orientações e princípios contidos na Rerum Novarum. A Magnifica Humanitas de Leão XIV é mais que uma atualização da Rerum Novarum, e isso está claramente dito em sua introdução, quando diz, em seu parágrafo 4 “hoje não podemos simplesmente repetir os seus preciosos ensinamentos, mas devemos pedir a Deus a sabedoria para interpretar as grandes tendências do nosso tempo, em particular os progressos da técnica.” Nesse sentido, a Magnifica Humanitas representa o desejo de “entrar em diálogo com todos os homens e mulheres do nosso tempo, com os quais partilhamos os acontecimentos, as questões e as aspirações da humanidade.” (§2)

Deste modo, o papa Leão XIV, propõe uma nova reflexão dos desafios que a humanidade apresenta para os cristãos - mas não só para eles - e insere esta reflexão como um caminho, dentro da tradição e do ensinamentos da chamada “Doutrina Social da Igreja”. E como fundamento para o diálogo, o primeiro passo é definir claramente que realidade é esta que é objeto de sua reflexão - veja os parágrafos 4,5 e 6 de Magnífica Humanitas. Não se trata de negar a inovação tecnológica, ou os avanços promovidos pela ciência, muito pelo contrário, é compreender e assumir esta realidade e com ela dialogar. E, na medida do possível, estabelecer algum critério ou princípio que possa garantir à humanidade a participação no sentido de responsabilizar-se pelos seus usos e escolhas diante desta realidade, salvaguardando sempre a dignidade da pessoa e a autodeterminação dos povos. Neste sentido, a Magnifica Humanitas, do papa Leão XIV é um apelo ético e cristão no uso tecnológico de nosso tempo. Não se trata de uma imposição, mas de uma reflexão, lúcida, corajosa e, por isso propõe, as questões: “Para onde vamos? Para que meta desejamos orientar-nos? Que direção escolher enquanto comunidade humana e enquanto povos?”

O caminho proposto pela Magnifica Humanitas para responder a estas questões parece simplista e ingênuo, pois baseia-se na dualidade, uma vez que se apresenta a partir de duas imagens bíblicas: a torre de Babel (Gn 11) e a “Reconstrução de Jerusalém” (Ne 1, 2). Mas apenas “parece”, pois ela é simples, mas não simplista, é simples porque se trata de uma escolha: para este ou para aquele caminho. Mas não é simplista, visto que tais escolhas exigem responsabilidade, compromisso e acima de tudo, se assumir como sujeito de nossa própria história - sujeito aqui não é o indivíduo, mas a coletividade, a humanidade. E que, na perspectiva da Igreja cristã, para os cristãos, requer assumir que tal escolha considera a ação do Espírito Santo que é a própria ação de Deus a conduzir o “seu povo”. Ao propor essas duas imagens, não há ingenuidade, há uma postura consciente e deliberada - portanto, responsável - não de negar a realidade tecnológica -  que não é nem bem, nem mal, nem boa, nem ruim em si mesmas - mas que podem estar a serviço da humanidade, respeitando a diversidade (de línguas, de conhecimento, de culturas, de saberes), no sentido de melhorá-la (santificá-la) ou pode estar a serviço da dominação, do controle, do aprisionamento do outro (sua condenação).  (§§ 8 ao 10).

Diante desta dualidade apresentada a escolha da “nova” Encíclica do Papa é clara. É a escolha da “corresponsabilidade corajosa” onde “todos possam florescer” (§ 13) e que todos possam (re)construir juntos - cientistas e estudiosos, empresários e trabalhadores, educadores e legisladores, sociedade civil, movimentos populares e comunidades de fé. E, aqui se apresenta mais uma argumento que reforça a esta “corresponsabilidade corajosa”, a clareza de que não será uma caminho fácil, cheio de incertezas, de adversidades, de tensões, mas que a responsabilidade comum (corresponsabilidade) pode enfrentar e se converter em “força criativa” (§13). Esta “força criativa”, no entanto, pressupõe alguns princípios, que são, nada mais, na menos, os princípios éticos, que na Encíclica foram traduzidos para a orientação dos cristãos pertencentes à Igreja católica, expressas através da “defesa da dignidade da pessoa, a destinação universal dos bens, da opção pelos pobres, do cuidado com a casa comum e da paz.(§14).

Delineadas as bases das orientações e reflexões, a Magnifica Humanitas aprofunda seus temas em 05 capítulos, que são por si, subsídios no diálogo proposto pelo papa para a Igreja, para os cristãos e para o diálogo com todos os homens e mulheres de boa vontade. Poderíamos dizer que, nesses capítulos, o papa está convocando as famílias para a reconstrução dos muros da nova “Jerusalém”, que no nosso tempo é também simbólica, principalmente se considerarmos os últimos acontecimentos na Palestina e no Estado Sionista de Israel.

Antes de encerrar este pequeno texto, que na realidade é um convite à leitura deste novo documento da Igreja Católica (leia na íntegra https://www.vatican.va/content/leo-xiv/ pt/encyclicals/documents/20260515-magnifica-humanitas.html#_ftnref9), faz-se necessário reafirmar que a Inteligência Artificial e todos os demais avanços tecnológicos vivenciados por nós hoje, não são tecnologias neutras, necessitam, portanto, mais do que normatizações, necessitam de criticidade e de responsabilidade em seu uso para que a dignidade humana seja preservada, cuidada e salvaguardada, independente de sua denominação religiosa.

Paz e bem!


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Faces de uma moeda

 Não somos totalmente bons, mas também não somos totalmente maus. Temos valores em nós, princípios éticos, vontade e desejo de acertar sempre. Mas também há coisas que fazemos e que não temos orgulho de fazer. Quantos sentimos ruins sentimos? Somos enfim como moedas, temos duas faces. E como cada um de nós somos únicos, essas faces não são de uma mesma moeda. Cada um de nós com as nossas faces duplas únicas. Esta é a ideia que regeu os versos abaixo:

UMA FACE DA MOEDA

Pago aluguel e uso gravatas
Mas sei que há um monstro que mora
No avesso de mim.

Através do vidro transparente 
Meu olhar faz corte elegante
De tão limpo
Como se sentisse a fome
De um estômago vazio

O ódio que sinto
Queima por dentro
Como um gelo absoluto
A construir uma catedral
Sob meus ossos.

E no salão nobre
Sob reflexos de espelhos
Danço abraçado ao egoísmo
Sob o som da indiferença

Sinto-me luz desistente

E no avesso do peito que,
De tanto se esconder,
Esquece como se traduz
O próprio nome.

Luto com todas as minhas forças
Todos os dias
Só para sair desse abismo.

E na busca de dignidade
Caminho...
Como uma moeda
Sou composto de duas faces.


A OUTRA FACE DA MOEDA

Somo gigantes de argila
Sob o peso leve da luz
Mesmo com os músculos cansados
E com as mãos trêmulas 
Sustentamos o céu.

No labirinto ético
Escolhemos caminhar
Mesmo sabendo
Que todos os atalhos
Se apresentam mais seguros
E diretos.

Nossa coragem aprendeu
A rezar baixinho
Enquanto caminhamos.

Limpamos o caos
E construímos
Arquiteturas invisíveis,
Inventamos a sede de ser rio,
Mas o perdão
É mais alto que o silêncio.

Abrimos caminhos
Para que Outros 
Também possam ser
Gigantes de argilas.

Luxuosa simplicidade
de nos humanizar.

E mesmo com músculos
Cansados,
E com
Mãos trêmulas
Sentimos o leve
Peso da Luz.


sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

O anjo que do céu desceu




O anjo que do céu desceu
e veio visitar Maria
Nada impôs e só perguntou:
Maria, aceitas ser bem-aventurada?
Podes gerar o Filho de Deus?
E esperou o seu "Sim" 
Ou o seu "Não".


O ano que do céu desceu,
Depois da resposta de Maria,
Sem nenhuma imposição
A José perguntou:
Maria me disse "Sim"
E espera o Filho de Deus,
Você a acolhe, José?
E José ficou Silencioso...
E pleno poderia dizer Sim 
Ou dizer Não

E com o "Sim" de Maria
E o "Sim" de José
O Verbo de Deus
Deixou de ser Verbo
E tornou-se Salvação.

O anjo que do céu desceu
Continua sua missão,
E quer falar ao teu coração.
E sem nenhuma imposição
Aguarda seu "Sim"
Ou seu "Não".

Imagem de Pedro Figueras

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Raízes Ancestrais

 O Brasil é fruto da ancestralidade de diversos povos: africanos, europeus, asiáticos e originários. Somos tudo isso e somos mais. Somos únicos. Somos exclusivos. Somos. E, porque somos, nos identificamos como ser que somos e assim nos apresentamos ao mundo de outros tantos, que não querem nem aceitam que somos.



quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Lágrima do palhaço

                                    Hannah Sophia

E então Lágrimas 

Nas faces familiares

Daqueles tatuados

Com Lágrimas vazias

Abaixo dos olhos.


Uma lástima 

Não só estampadas 

No rosto daqueles

Mas também destes 

Que se dizem inocentes.


Frutos dados pela semente.

Dada por aqueles que

Se dizem defensores do certo.

Penalidade proibida por lei.


Limpeza? Sei.

A proposta

Se contradiz 

Morte não é resposta.

O que vai fazer, senhor juiz?

quarta-feira, 16 de julho de 2025

A hora e a vez de Constança

 Hoje apresento a vocês a história de Constança. Uma mulher preta, escravizada, que afirma que não havia sido matriculada, conforme determinava a Lei de 1871 - que é a lei do Ventre Livre. E para ela o seu Senhor não havia feito tal matrícula. Nesse sentido, a petição inicial é muito simples, objetiva e direta. Ou seja, não há nenhum outro argumento. Somente isso, não foi matriculada pelo seu senhor e, portanto, teria o "direito" à liberdade.

Em todo caso o Juiz Municipal, aceita a petição e nomeia um Curador e um depositário. E o processo se inicia. Em seguida o Juiz Manoel Joaquim Cavalcanti de Albuquerque, solicita a verificação através do livro de matrícula do município. E ao fazer isso, vem a surpresa: Francisco Alves da Cunha, apontado como Réu no processo, isso porque Constança estava sob o domínio deste senhor., não era de fato senhor de Constança, pelo menos não era isso encontrado no livro de Matrícula de Escravos do Município. O Verdadeiro dono de Constança era outro. Veja a Certidão de Matrícula:


 Certifico que revendo o livro de matricula d’elle a folhas cento e seis consta que José Nunes da Costa no dia dois de Março de mil oito centos e oitenta e sete, matriculou a escrava Constança, idade de cincoenta e tres annos, solteira, legitima de José e Rita, cozinheira, em trezentos mil, reis, matriculada sob numero mil trezentos e vinte, digo, mil trezentos e noventa e cinco e um da relação, e na antiga, sob numero duzento e cincoenta sob o numero duzentos e cincoenta, por D. Barbara Flauzina de Jesus. Nada mais consta na referida matricula a que me reporta em fé do que a lavro e assigno. Cidade do Pará 10 de Maio de 1887.

O Collector Basilio Cecilio dos Santos


Diante das informações desta certidão, o Juiz não tinha muito o que fazer, a não ser suspender tanto o depósito, bem como a curatela de Constança, para depois encerrar o processo. Então expede o mandato para que os oficiais de justiça ir até a casa do depositário buscar a escrava e entregá-la ao seu verdadeiro dono. E isso acontece. O oficial de Justiça vai até o distrito de Mateus Leme, em casa do curador, buscar a escravizada Constança. E ela não se encontrava na casa do depositário, mas que estava em sua propriedade na Fazenda da Sesmaria, naquele distrito. Chegando à fazenda, o depositário rejeita a entrega de Constança, por ela já ser livre, pois já havia recebido "Carta de Liberdade", que ela, Constança, havia dado ao seu senhor, José Nunes da Costa, por esta liberdade.

Os oficiais de Justiça retornam ao Juiz e informa a situação. O Juiz não aceita aquela situação e envia novamente os oficiais, até à Fazenda Sesmaria para trazer a escravizada, e que apresente a carta de liberdade. Novamente o depositário recusa entregar Constança aos oficiais, alegando que não poderia entregar "pessoa livre" contra a vontade dela.  Informa também aos oficiais que ele não tinha em seu poder a referida "Carta de Liberdade". 

Diante desta informação, o Juiz faz intimação ao depositário e ao Curador para apresentar em audiência o documento que garantia a liberdade de Constança, sob as pena da Lei. E então, em 04 de agosto de 1887, em audiência pública, a Carta de Liberdade de Constança é apresentada ao juiz. Que após verificada a veracidade da mesma, declara Constança como mulher livre. Mas, por que a relutância em apresentar esta carta por parte do depositário? Por que ele resistiu tanto entregar esta carta ou apresentá-la ao juiz? E a resposta está na própria carta. A carta de liberdade foi passada em 21 de julho de 1882, 5 anos antes de Constância entrar na justiça. Ou seja, esta demora do depositário em entregar a carta e até mesmo devolver Constância ao seu dono estava no fato de que ele tinha intenções em continuar explorando o trabalho de Constança. Ele já era livre, mas estava em sua fazenda, prestando algum tipo de serviço. E foi por isso também que o Réu no Processo, Francisco Alves da Cunha, também não podia matriculá-la, pois se poderia descobrir que ela já era livre. Era conveniente para os senhores tentar encobrir esta situação. 

Dá para imaginar que muitos escravizados, mesmo já com a carta de alforria, não tinha garantias de sua liberdade, sendo preciso recorrer à justiça para conseguir, de fato, ser livre, e muitos escravizados não saberia como fazer isso. Constança torna-se assim um exemplo de como a informação pode ser útil na garantia de seus direitos. 

História como esta encontram-se a espera de pesquisadores e leitores no Acervo do Museu de Pará de Minas - MUSPAM. 

Veja abaixo o Podcast sobre este processo.


segunda-feira, 14 de julho de 2025

Romualdo em busca de sua liberdade.

 Prezado leitor, use sua imaginação. 

Imagine um homem negro, com 62 anos, não 62 anos qualquer... 62 anos de cativeiro. Mesmo após publicado a Lei do Sexagenário, no ano de 1885, esperava que seu senhor lhe concedesse sua liberdade. Mas isso não acontece. Fica sabendo que seu senhor renova sua matrícula e declara que ele tinha a idade de 45 anos. 

Sentindo injustiçado, recorre à justiça e faz denúncia, solicitando a sua liberdade de "injusto cativeiro". E apresenta em sua defesa sua certidão de nascimento passado pelo vigário de Pitangui. Como não bastasse, teve ainda que arrolar testemunhas para comprovar, em juízo, que aquela certidão se referia de fato a ele, buscando contrapor ao documento de matrícula feita por seu senhor. 

Então o juiz municipal da Cidade do Pará, aceita o pedido deste homem que vivia em situação de escravidão.  Para garantir o mínimo de proteção a este escravizado, nomeia um Curador para representá-lo judicialmente, e um depositário, onde com quem ele ficaria enquanto aguardasse sua liberdade. E o processo corre. 

Os documentos são juntados aos autos. Seu senhor foi notificado e audiência foi marcada. Chega o dia da audiência e o senhor não comparece, e alegando a impossibilidade pede ao juiz outra data. E então o juiz concede. 

Em segunda audiência novamente o senhor não comparece. E o juiz, após ouvir as testemunhas e a revelia dos senhores, faz o julgamento. Romualdo é declarado livre, mas não plenamente. Isso porque a lei exigia que o escravo liberto após 60 anos deveria prestar serviço ao seu senhor por mais 3 anos, a título de indenização. 

Depois desta agência deste homem escravizado, que durou meses (janeiro a abril de 1888). Mesmo após sua vitória, teria ele que voltar para junto ao seu senhor e ainda lhe prestar o serviço previsto pela lei. Felizmente isso não ocorreu, pois em seguida veio a Lei Aurea que declara extinta a escravidão no Brasil.  

Histórias como esta está à sua disposição no Acervo do Museu de Pará de Minas. Vai lá conhecer!!!

Escute esta história no Podcast abaixo.




domingo, 29 de junho de 2025

A importância de Nossa História Regional

 O estudo da História Regional é um grande desafio. Primeiro é porque os grandes institutos de pesquisa, cursos de Formação de História, ou ainda formação de Pesquisadores Sociais, não se preocupam com aspectos específicos da história local. Geralmente estes grupos ou instituições querem compreender os aspectos "macros" dos acontecimentos históricos. Aqueles aspectos que são explicadores gerais, que de certa forma consegue explicar determinadas tendências ou escolhas históricas que afetaram a nossa trajetória histórica. Assim estudamos história geral, ou história nacional (História do Brasil) e dentro deste campo estudamos determinados seguimentos como religião, economia, relações sociais, aspectos políticos, etc. Quase sempre estes seguimentos trazem contribuições no sentido de compreender os acontecimentos, ou tendências gerais da história nacional. E, por isso, quase sempre não temos obras de pesquisadores sobre a história regional, ou a história de uma cidade.

Outro ponto importante é o fato de uma documentação minimamente organizada para que se possa realizar uma pesquisa que consiga informações suficientes para se construir uma história que realmente faça sentido. Os órgãos públicos (fórum, cartórios, Igrejas, Prefeituras, Câmaras de vereadores e instituições culturais) possuem um acervo documental minimamente organizado e disponíveis para a realização de uma pesquisa. E quase sempre a documentação destas instituições públicas ou privadas tem a necessidade de serem confrontadas com informações de particulares, o que torna ainda mais difícil a pesquisa. É muito comum, assim que uma pessoa falece, descartar todo o material referente a sua existência. E com isso muitas informações úteis para a construção de uma narrativa história é perdida em definitivo, cabendo ao historiador se basear unicamente em depoimentos orais de pessoas que viveram um determinado acontecimento ou momento. Isso requer tempo, investimento, recursos técnicos e domínio de conhecimentos metodológicos para se construir uma história minimamente confiável e que dialogue com a realidade local ou ainda regional. 

É diante desta realidade que a organização de um acervo documental em cada cidade de uma determinada região torna-se fundamental e muito importante. Nesse sentido, o que o "Projeto Mesopotâmia Mineira" realizou em Pará de Minas, entre os anos de 2001 e 2006, ganha importância. Este projeto, desenvolvido na época pelo curso de História da Faculdade de Pará de Minas - FAPAM, sob minha coordenação, contou com a participação de 20 alunos. E nos seis (6) anos de muito trabalho, com participação parcial de alguns alunos, mas com dedicação de um núcleo de estudantes e professores, foi possível organizar o Acervo de Documentos cartoriais que hoje se encontra disponível para a pesquisa no Museu Histórico de Pará de Minas. 

Trata-se de um acervo de documentos cartoriais compostos de Inventários, divisão de bens, processos crime, divisão de terras, ações de liberdade, ações sumárias, e outros tipos de documentos, em sua maioria manuscritos. Este acervo abrange o período da segunda metade do século XIX (1850...) e primeira metade do século XX (anteriores a 1950), que estão a espera de olhares curiosos que possam buscar informações e construir uma história que nos ajude a compreender o desenvolvimento econômico, social, político e cultural desta região. 

Para exemplificar a riqueza deste acervo, segue abaixo um podcast sobre um dos documentos deste acervo. Trata-se de uma Ação de Liberdade datada de 1886. Ouça o Podcast e visite o acervo do Museu de Pará de Minas. Conheça esta história! Vale a pena.



domingo, 11 de maio de 2025

Vejo e Enxergo

Mesmo que eu ponha os olhos sobre as coisas
Meus olhos veem, mas nem sempre enxerga.
Quase sempre meus olhos ficam nas aparências
E só com muita insistência se consegue enxergar.

Nem céu, nem mar, mar e céu no mesmo lugar
Nem água, nem fogo, transformação para todo lugar
Nem terra, nem ar, apenas vida a brotar.
O mundo assim a criar.

Quando versos escrevo, quando não posso falar
Vejo a história que nasce e se funde 
Com água, fogo, terra e ar, nesse palavrear.


segunda-feira, 28 de abril de 2025

“Devagar com o andor, que o santo é de barro!”

 

Geraldo Fonte Boa


Sou professor da Rede Pública Municipal, e também da Rede Privada de ensino, e como professor, conhecedor de meu público, e por respeitá-lo, é que me senti na obrigação de manifestar. Sei que meu posicionamento pode não agradar a muitos, mas coloco-me disposto a ouvir. Mas discordar respeitosamente é próprio dos regimes democráticos. Chegou ao meu conhecimento a tramitação de um projeto lei de número 45, de 2025, assinado por três vereadores do município, onde propõem “o uso da leitura bíblica como ferramenta paradidática em escolas públicas e privadas do Município de Itaúna, MG”. Não declinarei os nomes dos referidos vereadores em respeito a eles, até porque os conheço, e sei que suas intenções podem ser boas, mas a proposta não é cabível.

Nada contra a leitura da bíblia, seja em qual lugar seja, mas uso dos textos bíblicos – apesar de sua riqueza histórica e cultural – como “ferramenta paradidática em escola públicas e privadas” aí ultrapassa os limites do uso didático e pedagógico e pode se transformar em um mecanismo de propagação de uma visão religiosa, ou mesmo se instrumento de exclusão e de menosprezo para crianças e adolescentes que serão excluídas do processo pedagógico e educacional.

Pelo que sabemos o Estado é laico, e o Brasil não é constituído somente de cristãos. Residem em nossos municípios pessoas que não tem no cristianismo sua profissão de fé, então querer propor a leitura bíblica nas escolas é uma falta de respeito para com o público que não é cristão. Portanto o Estado deve garantir que todos tenham liberdade de manifestar suas crenças e não deve interferir nesta questão. Não cabe a ele propor nenhum tipo de orientação que beneficie determinado grupo religioso. E no caso aqui analisado, mesmo que nenhum aluno seja obrigado a participar das atividades prevista nesta lei, como está descrito no artigo 2º da proposta, é por si mesmo uma atitude de exclusão de uma minoria. Além disso, a utilização de fragmentos de um determinado artigo da constituição e não de sua totalidade como fundamentação teórica fere o princípio constitucional. O inciso VI, do artigo 5º da Constituição Federal diz claramente “VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”. Não caberia aqui dizer que ao propor a leitura bíblica nas escolas, não estaria violando a liberdade de manifestação religiosas dos grupos que não são cristãos? Não estaria abrindo a possibilidade de transformar as escolas em locais de culto? E o que fazer com os alunos que não se identificam com o cristianismo, serão excluídas do processo pedagógico?

Além disso, vale ressaltar que a própria Constituição Federal já é muito clara quanto ao estabelecimento dos conteúdos a serem trabalhados na rede pública e privada de ensino, e no tocante ao ensino religioso, diz o Art. 210. “Serão fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental, de maneira a assegurar formação básica comum e respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais.” E em seu parágrafo primeiro diz: “§ 1º O ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental.” Por este motivo a aprovação desta lei passa a conflitar com o princípio facultativo da matrícula no ensino religioso” uma vez que está propondo a utilização de um texto bíblico que é a base de um determinado grupo ou segmento religioso em meio a tantos outros.

Mas caberia aqui algumas questões não menos importante: qual versão bíblica será utilizada, visto que temos inúmeras denominações cristãs com bíblias diferentes? E o que será ofertado para as crianças e adolescentes ou estudante que não professam determinada orientação religiosa? Serão abertos também às religiões de matriz africana, ou indígena, ou mesmo oriental e islâmicas em utilizarem de seus ritos, leitura, textos sagrados dentro das unidades escolares públicas e privadas? Os vereadores que estão propondo esta “inovação” conversaram com os pais dos alunos que se identificam com religiões não cristãs? Conhecem a realidade escolar da cidade e garantem que não haverá doutrinação religiosa nas unidades escolares?

Não nego que as histórias bíblicas podem ajudar a refletir sobre valores que transcendem nossas crenças religiosas, mas utilizá-las como “ferramenta paradidática” é uma maneira de dizer que tais valores presentes nas histórias bíblicas devem ser acolhidas e ensinadas como “verdades” em nossas escolas, e que os alunos de outras denominações religiosas serão privadas destas “verdades” e que as “verdades” de suas crenças não serão consideradas, nem respeitadas.

Por este motivo, prudência e respeito seriam bons princípios!  Respeito aos textos sagrados. Respeito às crenças dos outros! Respeito direito de inclusão apregoado pela constituição nacional! Respeito ao princípio da liberdade de crença e consciência conforme a integralidade de todo o inciso VI, do art. 5º da constituição federal, que deve garantir a todos os mesmos direitos de se manifestarem! E, finalmente, respeito a autonomia pedagógica escolar!

 E quanto à prudência, utilizarei de um dito popular muito útil neste momento: “devagar com o andor, que o santo é de barro”! 

sábado, 1 de março de 2025

Carnaval ou Carnavais?

Phonteboa


Os carnavais de outros tempos possuíam as marcas e os jeitos de seu próprio tempo. Como eu não sou mais das folias de momo de hoje, – embora  cheio de saudade dos blocos das décadas de 1980, trago na memória os blocos onde já brinquei meus carnavais: Os “Cuecões”, os “Castores”, o “Sai da reta”, a “Banda suja” e o tradicional “Pau de Gaiola” (que ainda hoje, faz a festa do Momo do povão itaunense), do “Bloco do Eu sozinho”, de Newton Regal...

Hoje tenho o meu samba marcado por outras cadências: a cadência de um pagode de saudosa memória. Assim como os primeiros trios-elétricos que disputou a atenção dos carnavais itaunenses, na década de 1990, como “All face” que, pouco a pouco, foi esvaziando as escolas de samba desta terrinha (o Zulu, o Império da Vila, a Unidos da Ponte...), outros grupos foram surgindo em cada carnaval, velhas guardas foram aparecendo nos carnavais itaunense, alguns apareciam em um ano, e depois sumiam nos intervalos de um ano para o outro. E assim o carnaval foi se reinventando...  E, como tudo na vida, ganhou novas configurações, novos centros de atenção, novos modos de se fazer e refazer...

E é neste “ritmo da saudade”, “neste pagode da memória” que trago para você, caro leitor, um relato trágico e de humor sofisticado de um escritor das antigas, Péricles Gomide Júnior, o nosso “Pancrácio Fidelis”. Sua crônica, publicada no ano de 1952, no jornal “Fôlha do Oeste”, revela características do carnaval daquele tempo. Claro que é apenas um relato, que deve ser sempre permeado pela crítica, pela ironia e pelo humor, próprio deste contador de histórias que foi “Pancrácio Fidelis”. Apreciem!   

O carnaval que passou

(“Fôlha do Oeste de 20-3-952)

O carnaval foi abafante, apesar do desânimo do povo, nas vésperas. Houve, na descrição do Orlando, muita animação, muta fantasia bonita, muito entusiasmo, muto pescoção, muto lança-perfume, muta pancadaria, muito confeti.

Gente boa, como o Chichico Saldanha e outros do mesmo time, passaram a noite na fila do Automóvel Clube, para assegurar as mesas para os festejos de Mômo.

O itaúnense é, indubitàvelmente, o único no gênero: passar a noite acordado, para garantir quatro noites sem dormir!

Houve alguns sururus, pescoçõezinhos meio avultados, o que não constituiu novidade, uma vez que nos anos anteriores, também o pau comeu.

Geralmente, em todas as outras cidades do Brasil, na quarta-feira de cinzas, os foliões dão o balanço: – “Perdi meu relógio”, – “Perdi minha abotoadura de ouro” – “Perdi minha carteira ...”

O balanço do itaúnense, como não podia deixar de ser, é inteiramente diferente: - “Perdi dois dentes. Um, eu sei que engoli, mas e o outro?” – “Entortei meu rôte...” – “deslocaram meu queixo...” – “Me acertaram todos os dois olhos...” etc. etc.

Ainda, no terceiro dia de carnaval, no Automóvel Clube, quando o tempo fechou, um senhor já entrado em anos, ao ver seu parente nas garras de outro, resolveu entrar na briga. Arregaçou as mangas, encheu o peito e entrou. Entrou de cara num punho fechado e retrocedeu cuspindo dentes, saliva, praga e nome feio. A turma do “deixa disso” arrelhou o bicho e o levou para baixo. Lá, o velhinho virou onça: – “ Me larguem! Isso não pode ficar assim! Preciso voltar lá em cima imediatamente! Me solta!” E fazia tremendos esforços para se desvencilhar.

– “O senhor já brigou muito hoje, chega. Não volta lá mais não; fique calmo, sossegue; o senhor não pode brigar mais!”

– “Eu não quero brigar mais não!” – berrou ele com toda a força dos seus pulmões – “Quero é ir buscar minha dentadura, antes que eles pisem nela!”.

 

GOMIDE JÚNIOR, Péricles. Crônicas e Narrativas de Pancrácio Fidelis. Gráfica Santa Maria: Belo Horizonte, 1961, p. 75-76.

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quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

SEMEADURA


Geraldo Phonteboa

Sobre um chão duro e seco

Como se feito de pura pedra

Nele lancei sementes.

Não criei expectativas,

Deixei sonhos correrem soltos

E segui caminho incerto.

 

Tempos depois de andanças

Naquele lugar não vi mais

Chão seco e duro...

Não reconheci as flores do lugar

Pensei em outra paragem.

Os sonhos não eram só meus.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

E A LEITURA DE ÚRSULA?

Geraldo Phonteboa

Então, lestes Úrsula?! É um romance ou um drama? Embora a história seja um romance, a história do amor de Tancredo e Úrsula e que, provoca em Fernando P., os mais cruéis sentimentos e ações.

Mas a história é dramática. Costurada de descrita de uma forma tão intensa que o leitor vai sendo levado pelo sentimento de ódio e rancor, e por fim lamenta pelo final escolhido pela autora. E como as coisas terminam sou levado a pensar no Drama como estilo. Convenhamos, é um verdadeiro drama de Úrsula – “pobre Úrsula”.

A história principal é a história deste amor. Do amor de uma donzela, branca, que vivi como “objeto” do amor de dois homens brancos, senhores de escravos e pertencente a elite do Maranhão. Este é a história que conduz toda a obra de Maria Firmina dos Reis.

No entanto, há mais duas histórias que se fazem presente nesta história dramática que a torna ainda mais dramática: a história de homens e mulheres escravizados e a história das mulheres colocadas como “objetos” das vontades dos homens.

A obra de Maria Firmina dos Reis é mais que uma denúncia da existência desses dois dramas, é sim um posicionamento consciente, decisivo e decisivo.  Existem algumas passagens em que estes dois outros dramas são claramente tematizados.

Quanto a infame existência da escravidão, a autora, diz

Senhor Deus! Quando calará no peito do homem a tua sublime máxima – ama a teu próximo como a ti mesmo –, e deixará de oprimir com tão repreensível injustiça ao seu semelhante!... Àquele que também era livre no seu país... Àquele que é seu irmão?

E o mísero sofria; porque era escravo, e a escravidão não lhe embrutecera a alma; porque os sentimentos generosos, que Deus lhe implantou no coração, permaneciam intactos e puros como a sua alma. Era infeliz, mas era virtuoso; e por isso seu coração enterneceu-se em presença da dolorosa cena, que se lhe ofereceu à vista. (pág. 21)

Aqui a autora busca o próprio evangelho ou princípio religioso para interpelar pela crueldade da escravidão, incompreensível racionalmente, mas que acaba por embrutecer a alma, não só dos negros, mas também dos brancos.

Em outra passagem quando Túlio é interpelado para revelar seu nome e condição ao desconhecido Tancredo, ele assim afirma:

— A minha condição é a de mísero escravo! Meu senhor – continuou – não me chameis amigo. Calculastes já, sondastes vós a distância que nos separa? Ah! O escravo é tão infeliz!... Tão mesquinha e rasteira é a sua sorte, que... (p.24)

E aqui, a autora ainda chama nossa atenção para o próprio posicionamento de Túlio, que não se vê na condição de ser digno de ser chamado de amigo, por ele ser escravo. Ou seja, a situação de escravidão impossibilita-se de qualquer aproximação de indivíduos que ocupam papéis sociais distantes e distantes.

E por fim, neste drama da escravidão presente na obra “Úrsula”, destaco mais uma passagem que ocupa um papel de denúncia ao drama da escravidão. Assim diz a autora:

Tu que não esmagaste com desprezo a quem traz na fronte estampado o ferrete da infâmia! Porque ao africano seu semelhante disse: — És meu! – Ele curvou a fronte, e humilde, rastejando qual erva, que se calcou aos pés, o vai seguindo? Porque o que é senhor, o que é livre, tem segura em suas mãos ambas a cadeia, que lhe oprime os pulsos. Cadeia infame e rigorosa, a que chamam “escravidão”?!... E, entretanto, este também era livre, livre como o pássaro, como o ar; porque no seu país não se é escravo. Ele escuta a nênia plangente de seu pai, escuta a canção sentida que cai dos lábios de sua mãe, e sente, como eles, que é livre; porque a razão lho diz, e a alma o compreende. Oh! A mente! Isso sim ninguém a pode escravizar! (p.34)

 Aqui vem a questão: quem deu ao branco do direito de escravizar o negro? E a escravidão o que é? A cadeia infame e rigorosa. E este posicionamento da autora se faz presente ao longo de todo romance/drama de Úrsula. Está presente no tratamento dado pelo comendador Fernando P. aos seus escravos, ou ainda na história e trajetória de “Suzana”.

Agora vamos ao outro drama. O drama vivido pelas mulheres, brancas ou não, que são consideradas “objetos” dos desejos e das vontades dos homens. Tendo inclusive seus destinos definidos por eles. A tal ponto que elas são incapazes de se libertar. Em várias passagens as vontades das mulheres são dominadas pelas forças, pelo desejo e pelo tratamento dispensado pelos homens. E mesmo quando estes homens manifestam seu amor por uma mulher o fazem como uma forma de justificativa de seu domínio sobre elas. Mas como citei algumas passagens no caso do drama da escravidão, devo fazer o mesmo aqui.

A primeira formada de sexismo, apontado pela autora, está na própria cultura masculina daquela sociedade, em que o homem tem a capacidade de colocar as mulheres em situação de completa exposição social. Diz assim a autora:

Oh! O sol é como o homem maligno e perverso, que bafeja com hálito impuro a donzela desvalida, e foge, e deixa-a entregue à vergonha, à desesperação, à morte! E depois, ri-se e busca outra, e mais outra vítima! A donzela e a flor choram em silêncio, e o seu choro ninguém compreende! (pág.19-20).

Já em outra passagem é apresentada uma segunda forma de sexismo, ainda tão presente atualmente, que é a figura paterna e seu tirocínio sobre sua esposa e sua prole. Assim diz a autora:

É que entre ele e sua esposa estava colocado o mais despótico poder: meu pai era o tirano de sua mulher; e ela, triste vítima, chorava em silêncio, e resignava-se com sublime brandura.

Meu pai era para com ela um homem desapiedado e orgulhoso – minha mãe era uma santa e humilde mulher.

Quantas vezes na infância, malgrado meu, testemunhei cenas dolorosas que magoavam, e de louca prepotência, que revoltavam! E meu coração alvoroçava-se nessas ocasiões, apesar das prudentes admoestações de minha pobre mãe. (p.43)

A grandiosidade desta obra é muito atual e merece ser lida e levada aos alunos do ensino fundamental e médio. Não por ser uma história escrita por uma mulher negra, mas por ser uma obra que tece as teias de nossa identidade. Por este motivo convido você leitor a ler também “Gupeva” e poemas desta grande escritora: Maria Firmina dos Reis.

E para terminar, deixo aqui uma estrofe do poema “Súplica” desta grande autora:

Dá, Senhor, que breve passe

Sobre a terra – o meu viver;

Bem vês, a flor desfalece

Da tarde no esmorecer;

Entretanto a flor é bela,

É bela de enlouquecer. [...]

 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

MARIA FIRMINA DOS REIS

 Por Geraldo Fonte Boa

Ilustração tirada do site: https://mondru.com/book-author/maria-firmina-dos-reis/ 
a quem registro os créditos.

Mulher, negra (o que vem primeiro, não sei, não sei), professora, escritora, ficcionista e poeta, maranhense, brasileira. O que mais se pode dizer desta mulher que, apesar de todos esses substantivos, não é capaz de a definir, a delimitar, ou ainda a abranger.

Maria Firmina, nasceu na cidade de São Luís do Maranhão, aos 11 de março de 1822, - filha da mulata forra Leonor Felipa dos Reis e do comerciante João Pedro Esteves -, e ficou encantada em 11 de novembro de 1917, quando morava na pequena Guimarães, também no Maranhão. Maria Firmina se definia como negra e bastarda. Mas era sua condição social não a limitava ou a impedia de fazer e ser o que quisesse ser. Tornou-se professora de primeiras letras na comarca de São José de Guimarães, e se fez da palavra e pela palavra. A palavra era seu ofício, e pela palavra levantou a bandeira contra a situação social do negro e, principalmente, da mulher negra.

A obra de Miria Firmina traz a palavra usada como espada para abrir a sociedade brasileira para se perceber o racismo, o preconceito e a discriminação. De maneira sutil, singela e leve, Maria Firmina diz o que tem a dizer e, ao revelar a realidade das senzalas, revela detalhes da formação da sociedade brasileira, que ao longo do século tentam camuflar, silenciar, apagar.

As espadas e facas utilizadas por Maria Firmina para cortar, retalhar e fazer vir à luz a realidade do interior da sociedade brasileira de seu tempo é a ironia, a metáfora e a sutilidade. E a forma elegante que usa de sua ficção, envolve o leitor e o leva para ver a sociedade por dentro, destacando o sexismo, a violência, o preconceito, o lugar de mando do homem branco, e vai, por dentro, fazendo com que o leitor rasgue as entranhas desta sociedade até chegar ao quase desespero irônico. Por isso seus escritos são comparados com a genialidade de Machado de Assis, Castro Alves, ou um Cruz e Souza, ou ainda Lima Barreto. Mas vejam, nenhum desses homens podem ser comparados a ela, devido ao seu lugar de fala. Ou seja, o lugar da palavra.

Maria Firmina fala a partir da senzala. A partir de sua vida como mulher negra. Deste pertencimento. É a partir deste lugar que a voz de Maria Firmina dos Reis ecoa e alcança todo o território brasileiro no final do século XIX. E hoje, gerações inteiras nunca ouviram falar desta mulher. Silenciaram-na.

A obra de Maria Firmina está esquecida, como a obra de várias outras mulheres de seu tempo, como Júlia Lopes de Almeida, Chiquinha Gonzaga e tantas outras. Mas abrir o livro, Ursula, pode ser um bom começo para resgatar e trazer aos nossos dias a sutiliza, a ironia e o debate de temas ainda tão necessários como o preconceito, o racismo e principalmente o sexismo. No entanto, não podemos esquecer de outro aspecto de sua existência, da existência de Firmina para além da escrita: o “ser-mulher”, o “ser-negra” e o “ser-educadora”.

 Talvez estes aspectos de sua existência possam ser iluminados pela sua literatura, pelas suas palavras. O “ser-mulher” vai além do sexismo e ao mesmo tempo o condena; o “ser-mulher” é o construir-se enquanto pessoa, que não precisa do “ser-homem” para se diferenciar ou construir-se. O “ser-negra”, da mesma forma e com a mesma intensidade, assumindo seu lugar no mundo e na história, e construindo-se a si mesma a partir desta identidade. E, finalmente, o “ser-educadora” que aponta para a necessidade de recolocação desta profissão no centro da sociedade brasileira.

Maria Firmina dos Reis ainda se encontra à margem da tradição literária brasileira, apesar de seu talento magnífico, que se colocou a serviço da problematização do lugar da mulher e do negro, não só do Brasil do final do século XIX, mas ainda no Brasil atual. Então, resgatar a necessidade de ler Maria Firmina dos Reis é possibilitar um diálogo “irônico”, sutil e realista de outras camadas sociais que hoje se encontram à margem da sociedade.

Vamos à leitura de “Ursula” para começar. Quem sabe assim possamos trazer sua voz e sua palavra como meio de conhecer a nós mesmos.

Pode começar a ler... eu vou junto. E, depois, voltaremos aqui para conversar sobre quais palavras de Maria Firmina encontraram ecos em nós.

Vamos lá. 

 

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

História da Gente Brasileira

Obra primorosa de Mary del Priore, a coleção "História da Gente Brasileira" é um mergulho na história que não aparece nos livros didáticos das escolas brasileiras. Uma história do cotidiano... dos hábitos... dos costumes... do fazer miudinho... da comida... das roupas... do modo de produzir o dia a dia... das técnicas produtivas... dos cantos de trabalho... Nesse sentido, esta coleção, dividida em 04 volumes, deveria estar entre as leituras prediletas de nossa gente, pois é um encontro consigo mesmo. Vale a pena ler!!

Com todos os créditos transcrevo abaixo um pequeno trecho tirado do volume 1 desta coleção, onde retrata o cotidiano das cantigas de trabalho dos homens e mulheres escravizados - os vissungos. Veja que maravilha...

" Em Minas Gerais, os ares das fazendas onde ainda havia mineração associada à lavoura eram embalados por cantigas de trabalho dos escravos. Esses cantos eram chamados de “vissungos” – alguns adaptados às fases de trabalho nas minas, outros parecendo cantos religiosos ajustados à ocasião. Conta-nos Aires da Mata Machado Filho que os negros no serviço cantavam o dia inteiro. Antes mesmo do nascer do sol, dirigiam-se à lua, em cantigas de evidente teor religioso. Pela manhã, entoavam um Pade Nosso, pedindo a Deus e Nossa Senhora que abençoassem seu trabalho e comida: “Otê! Pade Nosso cum Ave-Maria, securo câmera qui t’Anganamzambê, iô...”. A seguir, o cantador mestre acordava os companheiros: “Galo cantou, rê rê/ Cacariacou/ Cristo nasceu/ Galo já cantou”. À lua era pedido que “furasse o buraquinho do dia”: “Ai! Senhê!/ Ô... ô imbanda, combera ti, senhê”. Ao meio-dia, o cantador avisava à mulher de serviço que o sol ia alto: era hora do almoço: “Andambi, ucumbi u atundá...? Sequerende...

[...] Para ajuntar terras nos montes, apressar a marcha do cavalo, avisar sobre o encontro de um diamante, falar “língua de branco”, enterrar os mortos, ironizar o mau alimento que lhes era servido, alertar sobre fogo nos campos, perseguir a caça no mato, fugir para os quilombos, lembrar os pais, pedir uma roupa nova, contra os feitiços – enfim, para tudo –, cantavam os cativos. Os “vissungos” eram parte importante do cotidiano das fazendas, e sua música marcava o ritmo dos trabalhos e dos dias, informando sobre o que se passava. Durante o trabalho das fiandeiras e capinadores da roça, e no mutirão de construções, outros cantos enchiam as serras mineiras. Cantava-se até para reclamar do frio: “Auê/Duro já foi senguê”. Ou pedir chuva: “Ongombe coi i pique.”  Os escravos cantavam em todas as ocasiões possíveis. Embora tais coleções de música não tenham sobrevivido, há informações sobre a capacidade que tinham os cativos de improvisar com palmas e vozes. A dança vinha junto: “Assim que dois ou mais começavam a dançar, outros se juntavam ao grupo”, com “todas as variedades concebíveis de contorções e gesticulações”, segundo observou o viajante inglês Robertson. Nas senzalas ou nos zungus, pontos de reunião espalhados pela cidade, não faltavam os batuques, que muitos estudiosos percebem como o berço do samba. Duelos de trabalho, notadamente entre as raspadeiras de mandioca, que se desafiavam sentadas nas tulhas e casas de farinha, eram outra maneira de se divertir trabalhando. Nas horas vagas, nas fazendas e engenhos ou na cidade, cativos se dedicavam à feitura de belos objetos funcionais, religiosos e decorativos. Os urdidos com fibras naturais eram os mais comuns: esteiras, cestos, chapéus de palha e capas. Na tecelagem decorativa, os angolanos se revelavam artistas excepcionais.” (Mary del Priore, História da gente brasileira - Colônia, 2022, p. 203-204)







domingo, 25 de agosto de 2024

O Silêncio de meu pai

 O poema “O Silêncio de Meu Pai”, escrito pelo professor Phonteboa e incluído no minilivro “Presença Paterna” – uma obra de dimensões singulares (2,6 x 3,4 cm) e fonte no tamanho 4,5 –, é uma peça literária cuidadosamente elaborada para "afetar" profundamente seus leitores. Lançado em 2024, este minilivro, apesar de seu formato diminuto, revela-se grandioso em cada palavra, ampliando-se em significado à medida que o leitor mergulha na mensagem que o autor pretende transmitir. Phonteboa destaca que cada um tem seu próprio jeito de se tornar presente, e é precisamente essa presença silenciosa que o poema captura com maestria.

O poema explora a profundidade e a complexidade do silêncio como um meio de comunicação poderoso e, muitas vezes, subestimado. Através do silêncio do pai, o eu lírico experimenta uma conexão íntima e profunda que vai além das palavras. Este silêncio é apresentado não como ausência, mas como presença repleta de significados e sentidos, algo que ocupa "todos os espaços" do ser do filho, desencadeando reações e reflexões profundas.

A insistência em falar, por parte do filho, pode ser vista como uma tentativa de preencher um vazio que, na verdade, não existe, pois o silêncio do pai já está pleno de significado. Isso reflete a dificuldade humana em aceitar e compreender o silêncio como uma forma legítima e rica de comunicação, especialmente em uma sociedade onde o falar é muitas vezes mais valorizado que o ouvir.

À medida que o poema avança, o silêncio do pai adquire uma dimensão transcendente. Torna-se "uma pausa no barulho do mundo", um momento de introspecção e busca por novos significados, novos pensamentos. É neste ponto que o silêncio se transforma em eternidade – quando o pai se vai, seu silêncio permanece como um legado, algo que agora o filho compreende em sua totalidade.

O desfecho do poema é especialmente tocante. O eu lírico, ao perceber a eternidade do pai no silêncio, cala-se, indicando que finalmente compreendeu e aceitou o poder desse silêncio. O silêncio do pai não é mais algo a ser preenchido ou rompido, mas respeitado e honrado.

Em termos literários, o poema utiliza a repetição do verso "O silêncio de meu pai" para enfatizar a centralidade dessa ideia na vida do eu lírico. O uso de paradoxos, como "o silêncio que comunica" e "o silêncio que ocupa todos os espaços", reflete a complexidade do tema e a rica ambiguidade do silêncio como uma forma de expressão.

No geral, o poema é uma reflexão profunda sobre a comunicação não-verbal, o legado dos pais, e a transformação do silêncio em um espaço de memória e conexão espiritual. É um convite à introspecção e à valorização dos momentos de quietude, tanto na vida quanto na morte. O professor Phonteboa, com sua obra pequena em dimensões físicas, mas imensa em profundidade emocional, nos lembra que a presença se manifesta de formas diversas e que o silêncio, muitas vezes, é a mais eloquente delas.

O SILÊNCIO DE MEU PAI

O silêncio de meu pai era repleto de significados ...
Estava ali ao meu lado por um longo tempo sem pronunciar som algum
E como comunicava ...
O silêncio do meu Pai ocupava todos os espaços de meu ser
E provocava em mim reações descabidas
E eu insistia em falar...
E não ouvia plenamente o silêncio de meu pai.
O silêncio de meu pai
Era uma pausa no barulho no mundo
Era uma busca de um novo sentido
De um novo momento
De um novo pensamento.
O silêncio de meu pai
É, agora, eterno.
E, então, percebo que meu pai tornou-se eterno
No próprio silêncio que era o silêncio de meu pai.
No silêncio de meu pai
Calo-me.

Texto de Charles Aquino

Publicado originalmente no Blog "Itaúna Décadas"

https://itaunaemdecadas.blogspot.com/2024/08/o-silencio-de-meu-pai.html


quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Bartolomeu Campos de Queirós (1944-2012)

Por Phonteboa

Não conheci Bartolomeu. Encontrei-me com ele de forma informal e à distância. Isso ocorreu em um evento realizado em Pará de Minas no ano de 2009. Na época eu estava na função de Diretor da Faculdade de Pará de Minas e a Academia de Letras de Pará de Minas organizou um encontro com Bartolomeu em um auditório do Sindicato Rural de Pará de Minas. Nesse dia, após sua fala, Bartolomeu recebeu o diploma de Acadêmico Honorário da Academia de Letras de Pará de Minas. Lembro que foi uma solenidade muito simples, mas muito significativa. Como não o conhecia, não consegui, na época compreender o tamanho deste escritor. Não conhecia sua obra, nem mesmo quem ele era de fato.

O tempo passou e Bartolomeu ficou alí em minha memória, como uma pessoa importante, mas que não sabia de sua importância. Veja, não me leve a mal, eu não tinha noção de quem era ele. Não havia lido nada desse escritor. Pouco tempo depois, recebi a notícia de que Bartolomeu havia falecido[1] e pensei assim comigo: Bartolomeu, por ser um escritor, assim como dizia Guimarães Rosa, “encantou-se”. Isso porquê, para mim, todos os escritores, sem distinção, “ficam encantados”, não morrem nunca. Esta criação de João Guimarães Rosa é magnífica! Seu corpo desaparece, sua presença física ausenta-se. Mas suas ideias permanecem em seus escritos e depende unicamente da iniciativa de alguém que leiam suas palavras. Assim que estes escritos são lidos, o escritor se revela e sua dimensão de “encantamento” aparece.

Não busquei conhecer sua história, não li suas obras por anos. E mesmo sendo membro da Academia de Letras de Pará de Minas, tinha tantos outros projetos, tantos outros envolvimentos e Bartolomeu, melhor, suas obras, não provocaram em mim mobilização. Sabia de sua existência, mas isso não provocava a minha curiosidade ou a devida atenção. Ele estava “encantado”, e eu não percebia este “encantamento”. Até que um dia, em uma de nossas reuniões da Academia, o assunto sobre o cuidado com as obras dos membros da própria Academia, ou seja, “nós não nos lemos”. Convivemos com escritores e não conhecemos os seus escritos e as suas obras. E dentro desta conversa despretensiosa, mas séria, veio a constatação de que todos os nossos acadêmicos honorários já eram falecidos e que caberia a Academia fazer uma homenagem a eles, e mais que isso, conhecer suas obras. Foi neste momento que me propus ler Bartolomeu.

Pesquisei sobre ele, busquei algumas de suas obras. Visitei bibliotecas públicas e até mesmo escolares. Juntei material sobre ele, e comecei a ler sobre ele. E agora apresento-lhes este Bartolomeu “encantado”, ou melhor este “encantamento” que este “encantado” escritor tem provocado em mim. Trata-se de um insignificante diante da grandeza deste escritor “encantado”, mas é um começo.

Não pretendo fazer uma biografia, mas apontarei pequenas passagens de seus escritos que considerei importantes para conhecê-lo. E assim ele se apresentou a mim ao dizer nasceu “com 57 anos”, sendo “34 vindos de seu pai, cheio de amores duvidosos e desejos escondidos, e 23 de sua mãe, marcados com traições e perdas”. E que desenvolveu, por herança, “a capacidade de associar amor ao sofrimento.” E, a partir desta herança, é que pode perceber a pequena cidade em que nasceu enfeitada de rezas, procissões, novenas e pecados”, mas que também possuía o sabor de “laranja-serra-d’água”, “onde” sua “solidão já pressentida era tomada pelo vigário, professora, padrinho, beata, como exemplo de perfeição.” Foi nesta “solidão pressentida”, pois também por herança, seu pai “não passeou” com ele “montado em seus ombros”, e nem sua mãe “cantou cantigas de ninar” para lhe “trazer o sono”.

O que gostaria, no entanto, de destacar é seu jeito de ver o mundo de sua infância, costurada pela fantasia, isso por que para Bartolomeu “a infância é o lugar que jamais poderei estar a não ser pela fantasia” que para mim, revela como nós lidamos com a memória que fazemos do que vivemos. E nesse sentido, a memória é outra categoria magnífica em Bartolomeu. Para Bartolomeu a memória é um grande patrimônio que temos, pois “a memória tanto guarda o que a gente viveu como guarda o que a gente sonha” e esta memória, na visão dele, encontra diálogo na literatura. Para Bartolomeu é com “a literatura, esse mundo sonhado consegue falar”. E assim, usando de sua literatura Bartolomeu fala de sua infância, costurada com a fantasia, pois, para ele “a criança está lá em realidade”, mas o que escrevemos nem sempre é esta realidade, mas é a possibilidade de uma outra realidade, uma realidade plena de outros sentidos e significados.  Mas para estabelecer este “diálogo” com a infância através da literatura, para que ele seja apurado e profundo é preciso silêncio. Para Bartolomeu “conversar com o silêncio é uma coisa fascinante. Vivemos em uma sociedade em que o silêncio está interditado. As pessoas falam o tempo inteiro. [...] É um mundo que fala o tempo inteiro. Não conversamos com o silêncio. E quando a gente escuta o silêncio a gente tem muita resposta.”

E sobre este silêncio, encontrei em “Antes do depois” passagem magníficas e aí percebi, que o “silêncio” não era apenas uma categoria, mas uma prática; um meio pelo qual Bartolomeu mergulhava em sua memória de menino para dialogar com sua infância. O silêncio aparece de forma decisiva e poderosa. Era “preciso de pedacinhos de silêncio para dar fôlego às dores” (p.8), ou ainda era preciso engolir o choro, “para não invadir o silêncio do quarto meio escuro, como se tudo estivesse em eterno crepúsculo” (p.11). Ou ainda o “silêncio não tem sombra para camuflar as coisas. Silêncio desconhece fronteiras. O silêncio pode engolir até pessoas (p.12), mas ao mesmo tempo, o silêncio era um lugar onde ele “guardava o amor”. (p.23). E o mais surpreendente é que “no meio do silêncio vive todo tipo de ruído. Ninguém nunca escutou o silêncio. O que mais corta o silêncio é a palavra” e ela, a palavra, “se perde entre silêncios” (p.23).

Não sei se o leitor conseguiu observar, que Bartolomeu faz um “queba-cabeças” de ideias e dá outros sentidos às palavras[2]. E esta habilidade só consegue que conhece o mistério que as palavras escondem. E talvez por isso, o escritor consegue imaginar esses mistérios das palavras e assim alinhava uma a uma de outros jeitos. Mas isso só é possível pelo silêncio. E quando, mergulhado neste silêncio, o escritor consegue construir frases carregadas de mistérios que desafiam o nosso pensar. Hoje o Bartolomeu que aprendi de seus livros, de modo particular de “Indez”, “Por parte de Pai”, “O olho de vidro do meu avô” e de “Antes do depois” revelam a intimidade deste fabuloso escritor com as palavras, e esta intimidade chega a nos tirar o fôlego, e requer tempo e silêncios para ver além do olho. Ainda não sei se compreendo a literatura de Bartolomeu, não o conheço suficiente. Mas é um prazer conhecer gente assim, plena de encantamentos.  

Listas das obras de Bartolomeu Campos de Queiroz:

Por parte de Pai; Rosa dos ventos;  2 patas e 1 tatu; História em 3 atos; Onde tem bruxa, tem fada; Diário de Classe; Elefante; O olho de vidro do meu avô; Para querer bem; Tempo de vôo; De letra em letra;  Pedro;  ; Formiga amiga;  O guarda-chuva;  Anacleto;  Vermelho amargo;  Antes do depois;  O pato pacato;  Até passarinho passa;  Indez; Vida e obra de Aletrícia depois de Zoroastro; A Árvore;  As patas da vaca;  O peixe e o pássaro;  Mais como mais dá menos;  Mineração;  Ler, escrever e fazer conta de cabeça;  Antes e depois; Correspondência;  Faca afiada;  Raul luar;  A matinta perera;  Papo de pato;  Sei por ouvir dizer;  Ciganos;  ABC até Z;  A filha da preguiça;  De bichos e não só;  Para criar passarinho;  Nem te conto – volume 2;  O piolho;  Mário



[1] Bartolomeu nasceu em 25 de agosto de 1944 e encantou-se em 16 de janeiro de 2012.

[2] E aqui vale a pena ler a magnífica obra “Vida e obra de Aletrícia depois de Zoroastro” de Bartolomeu.