terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Faces de uma moeda

 Não somos totalmente bons, mas também não somos totalmente maus. Temos valores em nós, princípios éticos, vontade e desejo de acertar sempre. Mas também há coisas que fazemos e que não temos orgulho de fazer. Quantos sentimos ruins sentimos? Somos enfim como moedas, temos duas faces. E como cada um de nós somos únicos, essas faces não são de uma mesma moeda. Cada um de nós com as nossas faces duplas únicas. Esta é a ideia que regeu os versos abaixo:

UMA FACE DA MOEDA

Pago aluguel e uso gravatas
Mas sei que há um monstro que mora
No avesso de mim.

Através do vidro transparente 
Meu olhar faz corte elegante
De tão limpo
Como se sentisse a fome
De um estômago vazio

O ódio que sinto
Queima por dentro
Como um gelo absoluto
A construir uma catedral
Sob meus ossos.

E no salão nobre
Sob reflexos de espelhos
Danço abraçado ao egoísmo
Sob o som da indiferença

Sinto-me luz desistente

E no avesso do peito que,
De tanto se esconder,
Esquece como se traduz
O próprio nome.

Luto com todas as minhas forças
Todos os dias
Só para sair desse abismo.

E na busca de dignidade
Caminho...
Como uma moeda
Sou composto de duas faces.


A OUTRA FACE DA MOEDA

Somo gigantes de argila
Sob o peso leve da luz
Mesmo com os músculos cansados
E com as mãos trêmulas 
Sustentamos o céu.

No labirinto ético
Escolhemos caminhar
Mesmo sabendo
Que todos os atalhos
Se apresentam mais seguros
E diretos.

Nossa coragem aprendeu
A rezar baixinho
Enquanto caminhamos.

Limpamos o caos
E construímos
Arquiteturas invisíveis,
Inventamos a sede de ser rio,
Mas o perdão
É mais alto que o silêncio.

Abrimos caminhos
Para que Outros 
Também possam ser
Gigantes de argilas.

Luxuosa simplicidade
de nos humanizar.

E mesmo com músculos
Cansados,
E com
Mãos trêmulas
Sentimos o leve
Peso da Luz.


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