Para não falar da morte, nem dos mortos...
Talvez
este texto seja publicado na Sexta-feira da paixão, ou talvez próximo a este
dia... Mas isso não importa. Em minha família é tradição: Sexta-feira da Paixão
é dia de silêncio – não se assobia, não se canta, não liga televisão, nem
rádio, não escuta nenhum instrumento sonoro... tudo é silêncio... silêncio...
silêncio... – E, por quê? Ainda posso ouvir a resposta de meu pai – “É o nosso jejum, em respeito à morte do
filho de Deus”. Nunca entendi muito bem isso, quando menino. Hoje, não.
Sinto falta desse silêncio!!! Mais do que isso, percebo a dificuldade de fazer esse
silêncio... Então tenho feito esse sacrifício há alguns anos, ou seja, busco,
na Sexta-feira da paixão, praticar o silêncio total... não só deixo de escutar
os barulhos dos aparelhos eletrônicos, como procuro não fazer barulho que
possam expressar alegria, cadências, ritmos... além de buscar não fazer
barulho, procuro também fazer silêncio interior, meditativo, reflexivo...
E como
é difícil!!!
Como
Sexta-feira da paixão faço meu silêncio, quero hoje refletir sobre a morte e os
mortos. Sei que não é dia de finados, mas é dia reverenciar a morte redentora
do filho de Deus (para todo aquele que crê). E para falar sobre a morte e sobre
os mortos, quero trazer para esta reflexão a morte de dois brasileiros, que
apesar de suas fragilidades como seres humanos, ajudaram, de alguma forma,
muitos brasileiros e enfrentar momentos difíceis em nossa história recente:
dois mortos. Quero também clamar, neste dia, pela morte de algumas coisas em
nosso país!
Os dois mortos são: Chico Anysio
e Millôr Fernandes. Estes humoristas nos ajudaram, com sua arte, a atravessar o
período negro do Regime Militar. Fizeram-nos rir, aguçaram nossa inteligência e
fez-nos pensar em algumas possibilidades de elaborar uma crítica de nós mesmos.
Millôr Fernandes, com sua intelectualidade e singeleza de traços expressou
inconformismos, rebeldia, humor, gracejos... Chico, com seus personagens,
povoou o Chico City (retrato do Brasil). Ao mesmo tempo, que falamos da morte
destes dois grandes humoristas, que ocuparam horas e horas de homenagens nos
canais de televisão brasileiras, esquecemos, por outro lado, das tragédias que
continuam eliminando pessoas anônimas, e que pouco interessa à mídia
televisiva. Estes mortos anônimos são vítimas da inoperância da justiça
brasileira e de leis fracas que não protege o cidadão. Mortes que poderiam ser
evitadas se não houvesse um sistema judiciário que privilegia a impunidade e o
“jeitinho”. Assim, à minha maneira, os mortos Chico Anysio e Millôr Fernandes
representam estes silenciados pela cultura de morte implantada em nosso país.
E, por isso, sou obrigado a falar da morte...
Clamo pela morte da injustiça e da corrupção de
nossos políticos. Não desejo a morte de nossos políticos, mas a morte do
sadismo, da sacanagem, da ganância que gera a corrupção em grande parte de
nossos políticos (Demóstenes Torres está demonstrando, atualmente, como isso
funciona). Injustiça e corrupção são, a meu ver, as faces da morte em nosso
país. A injustiça (entenda-se aqui a própria lentidão do sistema judiciário, a
fragilidade das leis com todos seus recursos e brechas, a falta de vontade e
compromissos de alguns promotores e juízes, etc), são expressões reais da morte
em nosso país. Se antes, durante o período da ditadura militar não podíamos
falar, o silêncio era obrigatório – não por respeito, mas por medo, – hoje
podemos falar... mas muitos (nossas autoridades, principalmente) preferem
silenciar-se perante a situação sistêmica da morte instalada na vida política e
judiciária brasileira. E, diante deste tipo de silêncio (omissão), transformam
todos os dias do ano em sextas-feiras da paixão, de um silêncio tão profundo
(não reflexivo, vazio)... império da morte... morte sistêmica...
E neste meu silêncio(reflexivo,
orante) clamo pela morte da injustiça e da corrupção... e CREIO que, um dia, haverá
RESSURREIÇÃO para o nosso país!!!.
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