quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Empreendedorismo e Ética: o caso da cola voadora.


Provavelmente o título possa causar um pouco de estranheza ao leitor. Mas vou logo esclarecendo. O presente texto trata-se do relato de um fato ocorrido em uma sala durante uma aula de empreendedorismo e ética.  Este fato, no entanto, foi transformado em tema de uma aula sobre empreendedorismo e ética.  Mas vamos ao fato.

Estava em uma sala introduzindo o tema da aula, mas como o equipamento técnico necessário para a aula parou de funcionar e era preciso resolver aquele pequeno problema para dar continuidade ao tema, uma distração mínima foi o suficiente para que tudo ocorresse.  O fato teve início quando um aluno, na primeira carteira da segunda fila, pegou um tubo de cola branca que estava no chão e jogou-o rente ao chão para o seu dono, o antepenúltimo aluno da primeira fila. A falta de cálculo ou habilidade do arremessador, fez com que a cola fosse ao encontro do pé da aluna da carteira de traz, que alheia ao que ocorria, não teve dúvida, no impulso pegou a cola e jogou-a para frente, que atingiu o peito de um aluno que momentaneamente se levantara. Ao atingir o peito desse aluno a cola desviou, bateu no pescoço de um segundo aluno e foi parar no corpo de um terceiro aluno. Este por sua vez, sem o menor constrangimento pegou o tubo de cola e jogou-o aleatoriamente para o fundo da sala. Ao cair sobre a carteira de um aluno sentado na última carteira da quarta fila, este pegou o tubo de cola e o jogou com um pouco mais de força na direção do aluno que era o real proprietário daquele produto. Mas como a força foi excessiva a cola bateu na parede e o tubo se abriu e derramou cola pra todo lado, sujando a perna, o calçado do aluno e a parede da sala. Nesse momento, como professor, já estava retornando para dar continuidade ao tema da aula, e eis que já havia um pequeno tumulto organizado pela famosa “cola voadora”.  Mas como continuar o andamento da aula sem resolver o problema que se estabeleceu devido ao tubo de cola voadora?

Empenhei então em apurar o ocorrido e buscar uma solução para o problema instalado.  E como sempre ninguém quis assumir participação naquele fato. Pela negativa de todos os envolvidos a conclusão inicial foi que a “cola tinha vontade própria” e, portanto, ela tenha se dirigido para todos aqueles cantos da sala, passando por todos os alunos por livre e espontânea vontade.  Foi então, que resolvemos transformar aquele fato em tema da aula, a importância de assumir a responsabilidade de nossos atos quando se pretende agir com ética. Embora fosse necessário naquele momento apurar as responsabilidades dos envolvido no “tubo de cola voador”, afinal seria inconcebível um objeto ter agido por si só.  Então com o texto do material didático daquele dia propunha a frase racionalista do filósofo Reneé Descartes que diz “Penso, logo sou”, conduzi os alunos sobre a capacidade humana de pensar e as consequências possíveis deste pensar, não apenas em nossas ações pessoais, como também no próprio ato de pensar. E então, os alunos foram se envolvendo com o tema, e, cada um foi revelando suas versões sobre o fato ocorrido com o “tubo de cola voador”.  E, como professor fui percebendo e alinhavando os atos dos alunos envolvidos no trajeto do voo do tubo de cola. E assim, naquele diálogo entre professor e alunos, sem a preocupação em descobrir culpados, mas sim responsáveis, tudo foi se encaixando. 

A partir da reconstituição daquela trajetória, foi possível introduzir algumas reflexões sobre nossas ações impulsivas e sem nenhum planejamento, mas que, nem por isso, anulam nossas responsabilidades. Todos os alunos que reproduziram o ato impensado de jogar o tubo de cola, não consideraram outras possibilidades de se resolver o problema. Tomou a atitude pelo impulso e sem reflexão, abriu mão do ato de pensar e de planejar suas ações, mas ao mesmo tempo, ao se renunciar a capacidade de pensar sobre que decisões tomar, não se eximiram da  responsabilidade de seus atos. Este é o real sentido da ética: o agir com responsabilidade, mesmo que esta ação seja feita pelo impulso e sem a reflexão devida. Toda nossa ação gera responsabilidade. Se não formos responsáveis pelas nossas ações, por mais pequena que seja, banalizamos as grandes e jamais assumiremos compromissos éticos em nosso dia a dia.

Ao final, acredito que a apuração do fato, a identificação dos responsáveis pelo “tubo de cola voador” e a reflexão feita na sala, de alguma forma, retirou a questão da esfera da punição e a levou para a esfera da responsabilidade. A questão aparentemente foi ali resolvida, isso não significa que fatos como este não mais ocorrerão, mas caso ocorram os alunos, provavelmente, estarão mais dispostos a assumir suas responsabilidades e pensarão, com mais calma, sob as possibilidades de suas ações cotidianas.

 Educar nos dias atuais é muito mais que ensinar conteúdos, que fornecer informações, é trazer o cotidiano para a reflexão, para a análise. Transformar este cotidiano em momentos de aprendizado e de educação. Não é fácil, é sempre um desafio, é sempre um estar junto, administrando conflitos e atos de aparente indisciplina em momento de aprendizagem e reflexão.

E para encerrar, por que escrevo este texto? Muito simples, porque garanti aos meus alunos que iria relatar a “história do tubo de cola voador”, ocultando nomes. Faria isso porque a ética não se ensina só com teorias, mas ética se ensina com atitudes e com compromissos e responsabilidades cotidianas. E se quisermos empreendedores para o futuro, temos que ser empreendedores de nós mesmos assumindo pequenas e grandes responsabilidades, mesmo que eles sejam desafiadores e tenham consequência direta sob a minha pessoa.

 

sábado, 23 de fevereiro de 2013


 
Entre tantas possíveis e necessárias renúncias, uma renúncia.

O Brasil e o mundo, e não só os católicos, foram surpreendidos com a renúncia do Papa Bento XVI. Afinal não é para menos, o último papa a renunciar ocorreu em 1415. Tratava-se de Gregório XII que o fez mediante negociação no Concílio de Constança. Naquela época ocorria um grande cisma no ocidente, isto é, uma verdadeira crise religiosa, conhecida na história como Reforma Protestante. O Papa Gregório XII tinha 90 anos e sua renúncia foi a saída encontrada pela Igreja Católica para evitar que a crise religiosa se agravasse ainda mais.

Embora a Igreja Católica tenha enfrentado uma série de polêmicas internas e até mesmo questões doutrinárias desafiadoras nos tempos atuais, a realidade é muito diferente da vivida nos idos de 1415. Assim a renúncia do Papa Bento XVI merece uma apurada, criteriosa e prudente análise e mais ainda mais uma reflexão lenta e sábia que só o tempo será capaz de revelar com a verticalidade e a profundidade necessária.

A renúncia é sempre um ato pensado e uma decisão profundamente significativa. Se por um lado representa um gesto de responsabilidade e de despreendimento, pode ser entendido também como um ato profundamente pessoal. Por melhor assessorado que seja uma pessoa, o ato de renúncia tem implicações pessoais e é profundamente impactante na vida de quem o faz. Não se trata de um gesto com implicações somente pessoais, mas é sobre a pessoa quem a pratica é que tem maior impacto. Após a renúncia, em vários momentos, voltará à mente de quem renunciou a dúvida se tenha feito à coisa certa. Mas, com o passar do tempo esta dúvida cessará. O gesto continuará registrado na história e as análises e comentários sobre ele poderão não representar sua essência, as reflexões e as circunstâncias que levaram a tal decisão. Renunciar, no entanto, impõe sobre o renunciante uma enorme responsabilidade, visto que se torna um gesto que implica a criação de possibilidades imprevisíveis, tanto negativas (no sentido que os projetos não mais realização, pois o renunciante abre mão de um possível projeto que seria realizado por ele) como positivas (de outros projetos que se realização com a posse de outro). É dessas possibilidades que derivam a responsabilidade do ato de renúncia.

A renúncia aqui abordada foi assim anunciada ou justificada: “Após ter examinado perante Deus reiteradamente minha consciência, cheguei à certeza de que, pela idade avançada, já não tenho forças para exercer adequadamente o ministério petrino". O que se percebe é o confesso processo para a tomada de decisão, uma decisão consciente, espontânea e reflexiva. Um ato de coragem e que de alguma forma impõe a todos a reflexão e o ministério do cargo o renunciante. Assim poderia continuar tecendo este mísero comentário sobre a renúncia de um grande líder religioso (grande pela importância e pelo lugar da Igreja no mundo atual).

Mas gostaria de conduzir o leitor deste pequeno texto para os casos renunciáveis, isto é, para os brasileiros que necessitaria tomar a decisão de renúncia que faria tanto bem à nação, mas que não tem a coragem de fazê-lo. Penso assim em personagem de nosso mundo político, cuja renúncia poderia representar uma nova possibilidade para o nosso país. E não falo apenas de políticos do alto escalão, como José Genuino, do PT, que mesmo depois de condenado pelo Supremo Tribunal Federal teve a coragem de tomar posse como Deputado Federal, ou ainda o Senador Renan Calheiros com seu retorno à presidência do Senado, ou ainda do Senhor José Sarney que não “deixa o osso” por nada. Não falo somente desses, que certamente você pode concordar comigo, já deveriam ter renunciado a muito tempo.  Falo dos familiares (próximos, congênitos, não congênitos, amorosos ou não, afetivos, namoráveis, etc) de políticos, do executivo e do legislativo) que foram nomeados para cargos de confiança (com ou sem qualificação para tal). Estes deveriam, através de um gesto de coragem, renunciar seus cargos, mesmo a contragosto de seus políticos padrinhos. Esta renúncia, como eles sabem, seria mais que um ato de coragem, seria um ato de HONESTIDADE: abrir mão de um cargo, salários e status, seria um modo de dizer NÃO ao NEPOTISMO. Renunciar, nesses casos seria dá um tapa na face de tudo que está errado na vida política brasileira e seria uma bela saída, e mais, uma saída honrosa, tão digna como a do Papa Bento XVI, uma vez que nossos políticos não estão dispostos a renunciarem-se desta prática abusiva e  imoral de apadrinhamento político.

Que o exemplo de Bento XVI, ao renunciar, possa inspirar estas pessoas que ocupam cargos bem menores, mas que diante do que representa (NEPOTISMO) seria tão valoroso e digno para um país que merece dignidade e respeito dos que ocupam os cargos de gestão pública.

sábado, 24 de novembro de 2012


Dia Nacional da Consciência Negra.


No dia 20 de novembro comemorou-se o Dia Nacional da Consciência Negra. Mas o que se comemora, de fato, nesta data? Por que foi instituído o dia 20 de novembro como Dia Nacional da Consciência Negra? Como foi a origem deste movimento? Quais os reflexos desta comemoração para a consciência nacional, para a vida social e para a cultura do brasileiro? Todas estas perguntas são cabíveis, bem como muitas outras.
Primeiro é importante saber que esta dada foi escolhida e foi definida como uma homenagem à morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares. O quilombo situado na Serra da Barriga, na região do atual Estado de Alagoas, chegou a ter mais de 20 mil habitantes, significativa para a época, constituída por brancos pobres, índios, mestiços e principalmente negros que fugiam da escravidão.
Por mais de trezentos anos, os negros eram arrancados de sua terra e transportados nos porões de navios, previamente adaptados para este fim – os tumbeiros – vendidos aos proprietários de terras e pessoas com capacidade financeira nos centros urbanos para os mais diversos serviços. Muitos negros enfrentaram as piores condições de trabalho, sofriam com a severidade dos senhores, além da restrição cultural e ter que se adaptar para poder manifestar suas crenças, seus costumes, suas tradições.
Muitos preferiam fugir desta situação e refugiavam em lugares de difícil acesso e desses lugares promoviam assaltos, sequestros, ataques a propriedades buscando libertar outros negros daquela situação degradante. Nesses ambientes formavam comunidades onde podiam reviver suas tradições e crenças de origem – construir uma “África” (das muitas possíveis) aqui. O quilombo de Palmares pode ser considerado um desses grandes agrupamentos de negros que fugiram das fazendas da região de Alagoas, Bahia e Pernambuco. Durante mais de 100 anos (os primeiros registros do quilombo é do ano de 1597) este Quilombo se transformou em uma opção de vida e de liberdade para muitos negros. No entanto no final do século XVII, com a crise na produção açucareira no nordeste brasileiro, principalmente devido a retirada dos holandeses de Pernambuco e a concorrência do açúcar produzidos pelos mesmos holandeses nas Antilhas (Cuba, Haiti, São Domingos), a presença do Quilombo dos Palmares passou a representar uma ameaça à frágil estrutura econômica local. Destruí-lo era uma necessidade. O Quilombo resistiu o quanto pode, mas no ano de 1695, Zumbi, líder guerreiro do quilombo foi morto (20 de Novembro) e Palmares foi destruído.
Ao escolher o dia 20 de Novembro – dia da morte de Zumbi dos Palmares – como o Dia Nacional da Consciência Negra, mais que uma homenagem a este negro que lutou defendendo sua condição de livre no quilombo e sua gente, quer promover a discussão sobre os direitos da população negra de contar sua história, de valorizar sua cultura e de reconhecer a importância deste grupo étnico na história deste país, que ainda não gera as mesmas oportunidades aos diversos seguimentos sociais. Não se trata de criar um novo herói, embora ele (Zumbi) o seja, trata-se de recordar a luta dos negros pela sobrevivência, por sua dignidade, suas tradições e costumes, que é a luta dos menores de nossa sociedade (pessoas simples, pobres, brancos, negros, pardos).
Na década de 1960, um movimento proposto pelo professor de literatura do Rio Grande do Sul – professor Oliveira Silveira - iniciou um movimento de valorização da luta dos negros, que ao mesmo tempo resgatasse a história do negro no Brasil e ainda valorizasse sua cultura de modo amplo. O movimento cresceu de tal forma, conseguindo o apoio de vários seguimentos sociais e de entidades educacionais, políticas e religiosas. Esse apelo pela necessidade de recontar a história de grande parte da população se fez ouvir no governo brasileiro e o levou a aprovação de uma lei reconhecendo o dia 20 de novembro como o Dia Nacional da Consciência Negra (lei nº9.660). A partir de então a história dos negros, seu trabalho, sua luta e sua cultura passou a ser integrada ao sistema nacional de educação, movimentos passaram a ser organizados no sentido de valorizar a cultura afro-brasileira, políticas afirmativas passaram a ser aplicadas garantindo a ascensão social de brasileiros de origem africana, em suma, fazendo a inserção social dos descendentes dos ex-escravos. Uma forma de fazer o que o Estado deveria ter feito em 1888 quando o governo imperial aboliu a escravidão.
Nesse sentido devemos entender que ao se comemorar o Dia Nacional da Consciência Negra é oportunizar uma reflexão mais séria sobre este grupo étnico, uma das raízes da nação brasileira. Perceber e reconhecer as diferenças sociais e criar mecanismos de se construir uma sociedade mais justa e igual. Esta não deve ser uma luta exclusiva dos negros, e nem uma luta no sentido de divisão, de oposição, mas uma luta no sentido de esforço, de construção, de valorização desta diversidade cultural, étnica, que por si só, constitui uma riqueza da cultura que nos integra como país, como nação.
Não se trata de negar a abolição da escravatura feita por princesa Isabel em 13 de maio de 1888, mas de reconhecer que a abolição da escravatura foi, antes de tudo, uma conquista da população negra brasileira. E ao mesmo tempo de explicitar que aquela abolição, expressa pela Lei Áurea, não atendeu plenamente as necessidade da população negra brasileira. Que muito ficou por ser feito e que muito ainda está para ser feito. Reconhecer que é preciso abolir o preconceito, abolir os entraves que dificultam o acesso à educação de qualidade, a saúde de qualidade, abolir os mecanismos que inibem a justiça social, a melhor distribuição da renda, a aplicação séria, honesta e transparente dos recursos públicos. Esta luta é de todos nós brasileiros: brancos, negros e pardos. Por isso, viva Zumbi dos Palmares! Que sua história de luta seja para nós, exemplo e inspiração para a luta de nossos dias! Neste Quilombo que hoje é Itaúna, que um dia foi influenciado pelo Quilombo do Ambrósio... Mas esta é outra história.., que eu contarei em um outro dia...

segunda-feira, 19 de novembro de 2012


"ALÉM DOS TRILHOS"

Um mergulho na alma cultural de uma criança (e família) marcada pela chegada e pela partida dos trens de ferro. Este é o resultado da obra "Além dos trilhos" de Maria Lúcia Mendes neste leitor.

“Dentro de mim não mais ansiedade e sim quietude, reflexão: as coisas que amamos não envelhecem, assim pensando agachei-me, juntei um punhadinho de terra, esfreguei-o devagar entre os dedos e pequei o caminho de volta.
Quem nasce à beira da linha aprende cedo que chegadas e partidas são do comando de Deus, mas a viagem vida afora cabe ao destino de cada um. Seja outono ou inverno – não importa a estação – guardará consigo o desejo de decifrar segredos que se escondem em paisagens perdidas no ir e vir da memória” (pág. 10)
Iniciar um artigo com uma epigrafe, embora não sei se é ou não conveniente, mas isso é mais que uma questão de forma, de estilo, é uma questão de sentimento. Escolhi assim porque o texto da epígrafe se apresentou para mim como uma chave de leitura. Uma chave de leitura, porque “os segredos das paisagens do ir e vir da memória” perpassa toda a obra “Além dos trilhos”, ultrapassando os limites da realidade de uma história vivida por duas irmãs em uma cidade interiorana denominada de Cristais, mas que também pode ser qualquer cidade do interior das Minas Gerais marcadas pelo trem de ferro, pelo comércio de secos e molhados, pelos relacionamentos intensos com os vizinhos e, sobretudo, de como os problemas familiares dos adultos são percebidos e vivenciados pelas crianças.
Ao desvendar estes “segredos... no ir e vir da memória” há o encontro com a minha própria infância, que de alguma forma faz parte de uma mesma tradição e de uma mesma paisagem, a “infância comum” de muitos mineiros. Este lugar comum, esta paisagem comum, reforçam os laços da tradição e da cultura mineira o que torna este romance íntimo e aconchegante. Assim podemos “pegar o caminho de volta” e com o cheiro da terra, depois de “esfregados entre os dedos”, podemos também escrever nossas histórias, nossas memórias; isso porque “as coisas que amamos não envelhecem”.
Os apelos comerciais e o desejo de progresso destroem os antigos casarões, nossos cenários de infância; as antigas vendas ou mercearias vão sendo engolidos pelos supermercados e hipermercados cada vez mais frios e sem histórias. O tempo é cada vez mais corrido, não temos mais tempo de visitar os amigos, de um dedo de proza, de uma futrica, de um bate papo descontraído na venda da esquina – não há mais venda, não há mais esquina, – como não há mais rua onde se pode brincar, não há mais casas com alpendre para ver a vida passar...
Não se trata de mero saudosismo, trata-se de um outro tempo, de uma outra paisagem, de uma outra realidade e, o que nos resta, são apenas memórias que nos traz este passado e, pouco a pouco, “no ir e vir da memória” dá um novo sentido ao presente, compreendendo suas mudanças e ao mesmo tempo, atribuindo-lhe novo significado. É a partir destas memórias que os segredos são compreendidos e interpretados, e se configuram em novas paisagens, que com o tempo também deixarão de existir.
Assim as crianças de amanhã dificilmente entenderá como era a vida das crianças de hoje, se alguém não lhes escrever e falar. As crianças de hoje terão a oportunidade de compreender a infância de seus pais e avós ao lerem os exercícios da memória publicados por Maria Lúcia Mendes em “Além dos trilhos”, no último dia 09 de novembro. A maturidade desta memória está assegurada quando percebemos que somente aquilo que amamos é que não envelhece, é que se eterniza, é que se perpetua e se transforma em tradição, em cultura, em patrimônio cultural.
Além dos trilhos haverá sempre algo a mais a nos dizer... haverá ainda outros trilhos... e trilhos que se cruzam, que se interpõem e se entrelaçam... mas mais que trilhos... vida em sua eterna viagem.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012


“Tudo que é sólido desmancha no ar.”

 

Não falarei aqui de filosofia, nem de sociologia. Não pretendo também produzir algo que sirva de referência para estudiosos ou mesmo teóricos sérios e carrancudos que, forçando a barra, elaboram teorias que expliquem modelos acadêmicos de estudo ou teses científicas. Mas não podemos negar que o título (que não foi talhado por mim, e por isso está entre aspas) deste artigo é bastante sugestivo. Apesar tempo em que ele foi talhado, 1848 quando da publicação do Manifesto Comunista. Isso mesmo este título está inserido dentro de um contexto europeu de luta trabalhista, de greves operárias, de teorização sobre as relações de trabalho no sistema capitalismo industrial. 

Assim, recuperar o sentido desta afirmativa considerando o momento político e ideológico em que fora talhada não é simples. Sei que a extensão deste pequeno artigo não há espaço suficiente para verticalizar a análise desta afirmativa. Tenho consciência disso e, portanto, restringir-me a traçar um painel de esboços imperfeitos e fragmentários é algo natural e uma obrigação que imponho a mim mesmo. Portanto não pretendo produzir uma imagem completa, mas acredito que posso recuperar parte de seu significado e a partir dele refletir, também de modo limitado, a novas trajetórias que se estão delineando nos relacionamentos humanos. Não se trata de uma face parcial de relações segmentária, como é a relação trabalhista. Afinal as relações humanas não se limitam à relações trabalhistas.

Mas voltemos por um minuto a parte do fragmento de Karl Marx e Friedrich Engels quando então se talhou e frase capitular deste artigo. Assim escreveu Marx

“todas as relações fixas, enrijecidas, com seu travo de antiguidade e veneráveis preconceitos e opiniões, foram banidas; todas as novas relações se tornam antiquadas antes que cheguem a se ossificar. Tudo que é sólido desmancha no ar, tudo que é sagrado é profano, e os homens finalmente são levados a enfrentar (...) as verdadeiras condições de suas vidas e suas relações com seus companheiros humanos” (Marx apud Berman, 1998, pg.20).

Observe que a leitura deste fragmento, considerando o contexto de luta dos funcionários das indústrias por melhores condições de trabalho e salários, certamente as palavras de Marx poderia ganhar uma conotação de esperança, visto que as relações sólidas de dominação da classe operária poderiam ceder, amolecer “desmanchar no ar”.

            Creio que possamos nos apropriar das palavras de Marx, mesmo considerando o contexto do século XIX, para compreender os relacionamentos humanos nos dias deste inicio de século XXI. Hoje os relacionamentos frágeis, descartáveis, virtuais demais. O sociólogo Zygmunt Bauman denomina este relacionamento frágil e descartável de “líquido” criando assim uma categoria oposta ao “sólido” de Marx. No entanto, esta “liquidez” do relacionamento nos tempos atuais não é permanente, tem sua própria fluidez, mas também pode ser “enrijecer”, ganhar substância, substanciar-se. Tudo é possibilidade, e enquanto for possiblidade haverá esperança de que embora “tudo que é sólido desmancha no ar”, mas também nem tudo que não é sólido não é líquido, e tudo que é líquido pode se transformar em algo mais substancial, mas duradouro, mais extremamente comprometido. Porque ainda acredito na capacidade humana de se transformar.

domingo, 14 de outubro de 2012

O Palhaço


Não quero ser nada mais na vida,
pois sou palhaço.
Meu viver é aprender a rir de mim mesmo.
Não quero mudar o mundo,
quero apenas rir do meu mundo.

E se você sentir vontade de rir do meu mundo
pode ficar à vontade...
afinal, sou palhaço...

sexta-feira, 12 de outubro de 2012


E agora, tudo acabou?


Pronto, o pleito eleitoral está definido. Temos um novo chefe do executivo e uma nova Câmara Legislativa. Tudo ainda é alegria, é festa. Para outros decepção, tristeza. No entanto, ninguém perdeu, apenas não ganhou... Esta etapa do processo político terminou, mas agora é que de fato começa a festa da democracia.
Para muitos o retorno de Osmando Pereira significa o mais do mesmo, ou ainda uma perpetuação de uma situação, de um determinado grupo político, de uma certa continuidade. Mas há também os que acreditam que há um novo momento e que a eleição de Osmando representa um novo tempo, isso por quê os tempos são outros, os desafios outros, e até mesmo os partidos que compõe o poder político é também outro.
Mas independente de que lado você possa estar, uma coisa é certo. Agora está no momento de iniciarmos a estratégia do acompanhamento. De perceber como estes candidatos neoeleitos vão se comportar. Que medidas vão adotar, sua postura ética, seus compromissos de campanha, seus projetos e seu desempenho como homens públicos. Não é hora de pedir favores, de buscar um posicionamento a determinados cargos públicos.
O desafio maior do cidadão, do eleitor, não é o processo eleitoral. Ele é o mais simples e passageiro. O maior desafio é o acompanhamento dos que foram eleitos, isso porque a maioria dos eleitores não sabem como proceder, não conhece os mecanismos de fiscalização, e a grande maioria tenta ao longo do tempo de mandato tirar proveito pessoal no relacionamento dos políticos eleitos. Desvencilhar da tradição do famoso “jeitinho” brasileiro não é fácil. Assim, os pedidos pessoais, numa relação direta com cada vereador eleito, ou com o prefeito ou vice-prefeito representa uma verdadeira e difícil opção a ser vencida e/ou negada. Isso mesmo, é preciso abrir mão desta opção e passarmos a pensar na coletividade, um exercício difícil e enraizado em nossa cultura.
Além disso há ainda outro desafio ainda maior e bastante especifico. Saber esperar por decisão a curto, médio e longo prazo. Isso porque a situação em que se encontra a cidade será um desafio enorme a quem vai assumir sua administração. Infelizmente será preciso um tempo significativo para “arrumar a casa”.  Esta situação nos leva a pensar sobre a validade do artifício da reeleição. Acredito que o país não está preparado para este mecanismo de perpetuação no poder, visto que mandatos consecutivos têm demonstrado desastrosas. Esperamos que o novo prefeito eleito consiga o mais rápido possível colocar as coisas em ordem, e não alvore um  novo mandato, sem antes mesmo de cumprir o primeiro. A renovação é necessária e acreditamos ser o mais democrático.
Também será necessário que a Câmara Legislativa ser reorganize, que os novos vereadores se adaptem o mais rápido possível ao processo próprio do legislativo. Que conheçam bem suas funções e o que a população esperam deles, mas que não confundam isso com inércia e subserviência. E preciso transparência, ideoneidade e, principalmente, posicionamentos firmes e concisos, e que rompam com tentação de se venderem por ninharias próprias do poder.
E, agora que recomeça o trabalho de um novo tempo, de um novo tempo para a democracia, e a participação dos cidadãos é essencial. Não basta votar, é preciso acompanhar os eleitos... então, tudo começou...ou melhor, recomeçou.