Não somos totalmente bons, mas também não somos totalmente maus. Temos valores em nós, princípios éticos, vontade e desejo de acertar sempre. Mas também há coisas que fazemos e que não temos orgulho de fazer. Quantos sentimos ruins sentimos? Somos enfim como moedas, temos duas faces. E como cada um de nós somos únicos, essas faces não são de uma mesma moeda. Cada um de nós com as nossas faces duplas únicas. Esta é a ideia que regeu os versos abaixo:
UMA FACE DA MOEDA
Pago aluguel e uso gravatas
Mas sei que há um monstro que mora
No avesso de mim.
Mas sei que há um monstro que mora
No avesso de mim.
Através do vidro transparente
Meu olhar faz corte elegante
De tão limpo
Como se sentisse a fome
De um estômago vazio
Meu olhar faz corte elegante
De tão limpo
Como se sentisse a fome
De um estômago vazio
O ódio que sinto
Queima por dentro
Como um gelo absoluto
A construir uma catedral
Sob meus ossos.
E no salão nobre
Sob reflexos de espelhos
Danço abraçado ao egoísmo
Sob o som da indiferença
Sinto-me luz desistente
E no avesso do peito que,
De tanto se esconder,
Esquece como se traduz
O próprio nome.
Luto com todas as minhas forças
Todos os dias
Só para sair desse abismo.
E na busca de dignidade
Caminho...
Como uma moeda
Sou composto de duas faces.
A OUTRA FACE DA MOEDA
Somo gigantes de argila
Sob o peso leve da luz
Mesmo com os músculos cansados
E com as mãos trêmulas
Sustentamos o céu.
No labirinto ético
Escolhemos caminhar
Mesmo sabendo
Que todos os atalhos
Se apresentam mais seguros
E diretos.
Nossa coragem aprendeu
A rezar baixinho
Enquanto caminhamos.
Limpamos o caos
E construímos
Arquiteturas invisíveis,
Inventamos a sede de ser rio,
Mas o perdão
É mais alto que o silêncio.
Abrimos caminhos
Para que Outros
Também possam ser
Gigantes de argilas.
Luxuosa simplicidade
de nos humanizar.
E mesmo com músculos
Cansados,
E com
Mãos trêmulas
Sentimos o leve
Peso da Luz.