Phonteboa
Os carnavais de outros tempos possuíam as marcas e os jeitos de seu próprio tempo. Como eu não sou mais das folias de momo de hoje, – embora cheio de saudade dos blocos das décadas de 1980, trago na memória os blocos onde já brinquei meus carnavais: Os “Cuecões”, os “Castores”, o “Sai da reta”, a “Banda suja” e o tradicional “Pau de Gaiola” (que ainda hoje, faz a festa do Momo do povão itaunense), do “Bloco do Eu sozinho”, de Newton Regal...
Hoje tenho o
meu samba marcado por outras cadências: a cadência de um pagode de saudosa memória.
Assim como os primeiros trios-elétricos que disputou a atenção dos carnavais
itaunenses, na década de 1990, como “All face” que, pouco a pouco, foi
esvaziando as escolas de samba desta terrinha (o Zulu, o Império da Vila, a
Unidos da Ponte...), outros grupos foram surgindo em cada carnaval, velhas
guardas foram aparecendo nos carnavais itaunense, alguns apareciam em um ano, e
depois sumiam nos intervalos de um ano para o outro. E assim o carnaval foi se
reinventando... E, como tudo na vida, ganhou
novas configurações, novos centros de atenção, novos modos de se fazer e
refazer...
E é neste “ritmo
da saudade”, “neste pagode da memória” que trago para você, caro leitor, um
relato trágico e de humor sofisticado de um escritor das antigas, Péricles Gomide
Júnior, o nosso “Pancrácio Fidelis”. Sua crônica, publicada no ano de 1952, no
jornal “Fôlha do Oeste”, revela características do carnaval daquele tempo. Claro
que é apenas um relato, que deve ser sempre permeado pela crítica, pela ironia
e pelo humor, próprio deste contador de histórias que foi “Pancrácio Fidelis”.
Apreciem!
O carnaval que passou
(“Fôlha do Oeste de
20-3-952)
O carnaval
foi abafante, apesar do desânimo do povo, nas vésperas. Houve, na descrição do
Orlando, muita animação, muta fantasia bonita, muito entusiasmo, muto pescoção,
muto lança-perfume, muta pancadaria, muito confeti.
Gente boa, como
o Chichico Saldanha e outros do mesmo time, passaram a noite na fila do
Automóvel Clube, para assegurar as mesas para os festejos de Mômo.
O itaúnense
é, indubitàvelmente, o único no gênero: passar a noite acordado, para garantir
quatro noites sem dormir!
Houve alguns
sururus, pescoçõezinhos meio avultados, o que não constituiu novidade, uma vez
que nos anos anteriores, também o pau comeu.
Geralmente,
em todas as outras cidades do Brasil, na quarta-feira de cinzas, os foliões dão
o balanço: – “Perdi meu relógio”, – “Perdi minha abotoadura de ouro” – “Perdi
minha carteira ...”
O balanço do
itaúnense, como não podia deixar de ser, é inteiramente diferente: - “Perdi
dois dentes. Um, eu sei que engoli, mas e o outro?” – “Entortei meu rôte...” – “deslocaram
meu queixo...” – “Me acertaram todos os dois olhos...” etc. etc.
Ainda, no
terceiro dia de carnaval, no Automóvel Clube, quando o tempo fechou, um senhor
já entrado em anos, ao ver seu parente nas garras de outro, resolveu entrar na briga.
Arregaçou as mangas, encheu o peito e entrou. Entrou de cara num punho fechado
e retrocedeu cuspindo dentes, saliva, praga e nome feio. A turma do “deixa
disso” arrelhou o bicho e o levou para baixo. Lá, o velhinho virou onça: – “ Me
larguem! Isso não pode ficar assim! Preciso voltar lá em cima imediatamente! Me
solta!” E fazia tremendos esforços para se desvencilhar.
– “O senhor
já brigou muito hoje, chega. Não volta lá mais não; fique calmo, sossegue; o
senhor não pode brigar mais!”
– “Eu não
quero brigar mais não!” – berrou ele com toda a força dos seus pulmões – “Quero
é ir buscar minha dentadura, antes que eles pisem nela!”.
GOMIDE JÚNIOR,
Péricles. Crônicas e Narrativas de Pancrácio Fidelis. Gráfica Santa
Maria: Belo Horizonte, 1961, p. 75-76.
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